Celebrado em muitas cidades do Brasil nesta sexta-feira (2), o Dia de Iemanjá ainda não recebe o respeito em relação ao que representa na cultura brasileira, estando a Rainha do Mar consagrada na música popular brasileira e na literatura. É um dia de celebrações e devoção, mas também de luta contra o racismo religioso e de afirmação do direito de culto das religiões de matriz africana.
Entrevista do Programa Bem Viver, Claudia Alexandre, jornalista e doutoranda em ciências da religião, destaca que Iamanjá é uma das rainhas-mãe das religiões de matriz africana, mas também se relaciona com Nossa Senhora, da fé católica, por conta do sincretismo construído devido à perseguição sofrida pelas religiões afro-brasileiras. E se tornou um elemento da cultura brasileira que extrapolou os espaços de culto religioso.
“Hoje, além de celebrar a grande rainha do mar, temos muitos credos que, mesmo quem não vai na Igreja Católica, quem não vai em um terreiro, tem um apreço a essa simbologia que é tão brasileira. Iemanjá é a orixá mais brasileira que a gente tem hoje”, afirma.
Claudia lembra que a devoção à Iemanjá no Rio Vermelho, em Salvador, palco das festividades principais do 2 de fevereiro, teve início nos anos 1950. Um repentino desaparecimento dos peixes no local, que sempre teve pesca abundante, desesperou os pescadores da região.
“Um deles fez uma promessa e ao sair para pescar encontrou uma imagem de Iemanjá. Na verdade, não de Iemanjá, mas de Nossa Senhora e que ficou relacionada porque há um sincretismo. E a pesca voltou a ser abundante depois disso. Coincidência não existe, mas há toda uma dimensão espiritual que agiu ali para que os pescadores fossem abençoados. E a partir daí, todo 2 de fevereiro, os pescadores promovem essa festa. As primeiras embarcações que saíram agora de manhã para o mar levam presentes a Iemanjá”, conta a pesquisadora.
Apesar de toda a importância da data e da longa história da celebração, o Dia de Iemanjá não é um feriado nacional. Vinte e três cidades do Rio Grande do Sul têm um feriado no dia 2 de fevereiro, mas oficialmente associados à Nossa Senhora dos Navegantes. No norte e nordeste dezenas de cidades celebram Iemanjá. Salvador é a cidade com maior mobilização popular para a data, mesmo assim não tem feriado.
“A cidade está parada para essa festividade. Para você ver a força popular. Todo o comércio, o turismo, as pessoas que estão circulando pelas ruas, pelo Rio Vermelho, estão vivendo sua devoção. Quando vemos uma cidade como Salvador que é a capital da festa nesse 2 de fevereiro e o poder público não assume essa festividade como algo de valor e importância do povo, isso tem a ver com o preconceito”, avalia Claudia.
Esse preconceito foi construído por séculos de opressão contra o povo negro, sua cultura e espiritualidade. E isso está visível ainda hoje no sincretismo religioso, que foi construído como uma maneira de os devotos de matriz africana cultuarem sua fé disfarçadamente, tentando evitar a perseguição e a repressão pela Igreja Católica.
Fonte: Brasil de Fato



