Festa de Iemanjá recebe investimentos da Prefeitura de Salvador e reforça protagonismo dos pescadores

Há cinco anos, a Festa de Iemanjá foi reconhecida como patrimônio imaterial de Salvador. Na quinta-feira (30), a Prefeitura, por meio da Fundação Gregório de Matos (FGM), promoveu um evento na Colônia Z1, no bairro do Rio Vermelho, para entregar uma série de iniciativas voltadas à preservação de uma das maiores celebrações religiosas e culturais do país: a festa em homenagem à Rainha do Mar, que acontece no próximo domingo (2).

Na ocasião, foram apresentados o restauro da imagem da orixá, localizada em frente à Casa de Yemanjá, na colônia de pescadores, assim como a restauração de seis embarcações desses trabalhadores, que são os anfitriões da festa e responsáveis pelo ponto alto do evento: a entrega da oferenda em alto-mar.

Além disso, foi anunciada a concessão de um prêmio no valor de R$ 15 mil para 30 detentores de bens patrimoniais reconhecidos em Salvador. Entre eles, além dos pescadores, estão capoeiristas, baianas de acarajé e representantes do Samba Duro. O evento também contou com um momento de debate sobre a Festa de Iemanjá.

Ao longo de 2024, por meio do edital Salvador Cidade Patrimônio, foi firmada uma parceria com a Associação dos Terreiros da Bahia Egbé Axé, que desenvolveu uma série de ações voltadas ao fortalecimento dos patrimônios imateriais da cidade, incluindo a Festa de Iemanjá.

“Durante esse período, realizamos diversas reuniões com os pescadores da Colônia Z1, que são os principais detentores dessa tradição. A partir dessas discussões, elaboramos um plano de salvaguarda, composto por uma série de ações voltadas à preservação, valorização e divulgação desse patrimônio. Esse plano não se restringe apenas ao dia 2 de fevereiro, data da celebração principal da Festa de Iemanjá, mas também inclui iniciativas voltadas para a saúde dos pescadores, preservação ambiental e educação patrimonial, garantindo que essas ações se desdobrem ao longo do tempo”, explicou o diretor de Patrimônio e Equipamentos Culturais da FGM, Chicco Assis.

Restauro – Ainda segundo Assis, antes mesmo da elaboração desse plano, a Fundação, por meio da Diretoria de Patrimônio e da Gerência de Patrimônio, já estava desenvolvendo diversas iniciativas. Uma delas foi o restauro da imagem de Iemanjá, escultura que tem mais de 50 anos de existência. O processo devolveu à imagem cores e texturas mais próximas das originais.

“Além disso, por meio de um convênio, viabilizamos a requalificação de seis embarcações pertencentes aos pescadores da colônia. Essas embarcações são essenciais tanto para a realização da festa – transportando o presente principal e demais oferendas – quanto para o cotidiano dos pescadores, que delas dependem para seu sustento”, completou o diretor.

Um dos contemplados foi o pescador Tarley dos Santos, de 43 anos. Ele é um dos responsáveis pela entrega da oferenda e utiliza a embarcação, herdada de outros pescadores, para trabalhar. O meio de transporte não estava em boas condições, já que os últimos reparos haviam sido feitos há mais de 20 anos.

“A reforma da nossa embarcação foi uma grande ajuda para os pescadores aqui do Rio Vermelho, porque a gente não tinha recursos para realizar essa manutenção no barco, entende? Agradeço à Prefeitura e aos colaboradores que nos ajudaram a tornar isso possível. Foi algo muito bom, maravilhoso. Eu fico duas noites no mar com essa embarcação. Antes da reforma, ela já estava sem manutenção há bastante tempo. Hoje, graças ao projeto, ela está segura, forte, nota dez”, celebrou o pescador.

Salvaguarda – Uma das responsáveis pelo processo de salvaguarda da festa, Mãe Diana de Oxum destacou que a celebração é um patrimônio imaterial que precisa ser preservado e respeitado. Presente no encontro Patrimônio É…, ela pontuou também que, embora a festa envolva diversos grupos – como turistas, comerciantes e a comunidade religiosa –, os pescadores são os verdadeiros protagonistas, pois são eles que historicamente organizam e realizam o ponto alto da festa: a entrega do presente no mar.

“Falar em patrimônio é falar da nossa identidade, do nosso povo, da nossa cultura. Principalmente quando se trata da Festa de Iemanjá, que é um patrimônio imaterial e que, de fato, precisamos salvaguardar. Nesse processo de salvaguarda, sempre destacamos que o presente de Iemanjá pertence aos pescadores. A comunidade, o povo de terreiro, todos fazem parte, mas os pescadores são os verdadeiros donos da festa. É essencial manter viva a memória do passado para entendermos como chegamos até aqui”, enfatizou.

Cleidiana Ramos, jornalista e doutora em Antropologia com tese sobre as festas de largo da capital baiana, reforçou no Patrimônio É… a resistência e resiliência dos pescadores ao relembrar que, por muitos anos, eles enfrentaram dificuldades para organizar a festa, sem apoio ou estrutura suficiente. Mesmo assim, a tradição se manteve viva por mais de 100 anos, mostrando sua força e importância.

“Acho que a patrimonialização da festa pela Prefeitura foi um grande acerto, porque essa é uma celebração muito rica, com características únicas. Isso acontece com outras festas, mas a Festa de Iemanjá, em especial, é uma festa de ofício. Estou tentando reforçar isso. São os pescadores que realizam essa festa; na verdade, nós somos convidados, nós aproveitamos a festa deles, mas a devoção é deles. Sem os presentes deles, não há festa. Os dois ritos principais – a chegada e a saída dos presentes – são fundamentais, com extensão para a Dique do Tororó, onde tudo começa. O resto da cidade é convidado a participar”, declarou.

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