Como seria de se esperar de uma jovem roqueira de 28 anos, Linda Ramalho é fã de Miley Cyrus, Pitty e Avril Lavigne. Aproveitando os catálogos disponíveis nas plataformas de streaming, como é típico em sua geração, ela vai até Ramones, Nirvana, Iggy Pop… chegando a Elvis Presley.
— Sempre gostei de música antiga — diz ela, sobre a “antiguidade” percebida por alguém nascida depois da morte do “jovem” Kurt Cobain, outro dia, em 1994. — Mas o que ouço mesmo é Zé Ramalho. Ele é rock’n’roll demais.
Rock das antigas, conhecimento musical, o sobrenome Ramalho… aí tudo se encaixa. Linda é a sexta (e mais jovem) filha de Zé Ramalho, o bardo paraibano que há décadas flerta com o rock.
— Ele não faz exatamente rock, a onda dele é a de misturar gêneros — define a filha coruja. — Mas é um cara da MPB que todo roqueiro respeita. Meu baixista, João Guilherme, sabe tocar todas as músicas do meu pai, por exemplo. Acho que também existe um preconceito contra a música nordestina, principalmente da Paraíba, como se o Nordeste não fizesse rock. Pô, Recife (PE) é uma cidade mais roqueira do que o Rio!

Mas os roqueiros cariocas e do restante do país não perdem por esperar. Acaba de chegar às plataformas “Linda Ramalho canta Zé Ramalho”, em que ela dá uma envenenada roqueira em composições do pai. A primeira a chegar ao streaming foi a clássica “Chão de giz”, com direito a clipe e figurino especial.
— Eu vesti uma camisa amarela da coleção do meu pai, das que ele usa nos shows — conta ela. — Fui a João Pessoa, depois de quatro anos sem ir, por causa da pandemia, e meu irmão Christian (filho mais velho de Zé) tinha guardado praticamente tudo da nossa antiga casa lá, que foi vendida.
Linda foi direto no armário em que o mano estocou, com todo o cuidado, as camisas de shows de Zé, geralmente de mangas compridas, dando a ela o direito de escolher uma.
— A camisa amarela gritou na minha cara — lembra a cantora, contando que a roupa, costurada à mão, foi presente de um fã-clube. — Aí eu trouxe para o Rio, usei no clipe e disse ao meu pai que me vesti como ele. Ele olhou e disse: “Nunca usei essa camisa” (risos). Mas tudo bem, quem sabe assim eu ganho um pouco do fã-clube dele…
Na hora de pensar no repertório do disco, Linda foi na jugular, ou seja, nos sucessos: “Admirável gado novo”, “Vila do Sossego”, “Frevo mulher”, “Garoto de aluguel”, está tudo lá.
— Pensamos, eu e a banda, em um disco de dez músicas, a maioria conhecidas — conta ela, que já cantou em um grupo chamado Linda and The Spacehearts, dedicado a versões contemporâneas (“sou meio grunge”, define ela) de sucessos do rock. — Acho que “A terceira lâmina” é a música mais lado B das que gravamos, talvez ao lado de “Galope rasante”, mas essa é bem querida dos fãs.

Ao lado de seus músicos — como o guitarrista China, ex-baixista do Matanza, figura conhecida do rock —, ela pensou nos arranjos e foi bater na porta de um velho amigo da família.
— Zé sempre foi do rock — começa Robertinho de Recife, lenda da guitarra nacional e produtor há décadas ligado à família Ramalho. — Quando o conheci, ainda no Nordeste, ele era do grupo Quatro Lobos da Paraíba, super-roqueiro. Depois suas composições acabaram mais direcionadas à MPB e à música nordestina.
Linda é outra a carimbar a carteirinha de roqueiro do pai.
— Ele tem todos os DVDs do Jimi Hendrix! — diz ela, mostrando o conhecimento de “mídias antigas”, como é adequado aos fãs de rock. — A gente sempre ouve música junto, eu aprendo muito. Ele é louco por Pink Floyd.
Senhor Ozzy Osbourne
Robertinho — que já produziu uma versão do clássico “Mr. Crowley”, de Ozzy Osbourne, rebatizada “Senhor Ozzy” e interpretada pela voz de trovão de Zé Ramalho — conta que o desafio foi despir as canções do homenageado e vesti-las com um trio roqueiro, de baixo, guitarra e bateria (a cargo de Caco Braga).
— O disco não é todo de rock, tem ska, por exemplo, em “Frevo mulher” — conta ele. — Eles arranjaram tudo, e muito bem, para aquele trio, com a guitarra do China liderando. A Linda me surpreendeu pela dedicação e pela concentração, iguais às do pai. Ela canta para fora, tem a voz ideal para um projeto como esse.
Uma música, no entanto, tinha elementos demais para o formato, na opinião do produtor.
— Ele achou que “Beira-mar” perderia, por trazer muitas informações — conta Linda. — Aceitamos a sugestão, e fomos de “Galope rasante”, também ideia do Robertinho.
Lançado o disco, a ideia da cantora é deixar que suas versões (“algumas são muito diferentes das originais, como ‘A terceira lâmina’, em que faço um vocal que lembra doom metal”, diz ela) circulem, para só então começar a marcar shows.
— Vamos deixar o pessoal se acostumar, você sabe como são os fãs de Zé Ramalho — diz ela, lembrando a devoção quase religiosa dos admiradores do pai, semelhante àquela dedicada a seu amigo Raul Seixas.
Robertinho define:
— É um disco para se amar ou odiar. Eu fiquei fã.
O paizão, orgulhoso, sabe dos perigos do mundo lá fora, onde nem sempre faz um tempo confortável.
— Espero que ela tenha sucesso e já adverti sobre os haters, os odiadores de plantão que sempre farão seus comentários de baixo nível, e é assim mesmo — diz Zé, comentando via texto. — O formato pop-rock, que ela cresceu ouvindo, ficou muito bem encaixado nas músicas, que, com a produção do Robertinho de Recife, deixou tudo em casa.
Por Bernardo Araujo especial para O GLOBO



